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segunda-feira, 2 de março de 2026

do tutano de meus ossos



quando olha-me pelo podre
pelo nervo que te embolia
satirizo
sou livre que você não é

pobre de ti
pobre de ti

que me vê gorda por gula
que me vê feliz pela luxúria

oh, glória
ai que glória...

e sorrindo revelo 
mistérios gozosos
celebrados em terços
profanos e em língua
conhecida ou não

eles me chupam fundo
tiram tudo de mim
me roubam, me ferem
me saciam e me matam aos poucos

eu não tenho pressa
sou safada mesmo
dessas florzinhas
que dão nos beirais das casas

eles vão fundo
seja com o boca
ou com a faca
tiram meu tutano

e por vezes só isso 
te mata, te mata aos poucos
enquanto corrói por dentro
desapruma 

a inveja é uma coisa poderosa
mais poderosa que a morte
menos poderosa que a vida
e emparelha-se com a paixão



terça-feira, 15 de novembro de 2016

rameira

meus olhos delatores
acusam me de impostora
a cada miopia torpe
a cada teima que insiste
a minha natureza enganosa
não se faz de rogada
e desfia-se na aspereza
para não fazer questão
de explicar
quem dera eu fosse assim
o que muitos pensam de mim
para que agruras e mal agouros
não pudessem me alcançar
sou eu mesma de sempre
essa teimosa passível
que flora toda época
para preservar-me flor
eu sou velha trepadeira
a rameira das canções antigas
eu sou a biscate da ponta do 
botequim
que já não se importa 
com o apelido
mas sou eu e apenas eu
que me dou o limite
de fazer o escolhido
para quem entrego canção
e as suas troveretas 
suas poesias de buceta
não ganham meu coração.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

a dama de algodão

era ela quem te recebia
por mísero pão
às duas da manhã
depois do serão 
da madrugada

era ela quem nada pedia
e por vezes se dava
por indiscutível solidão
das paragens de ônibus
e a escuridão

deita criança
descansa que amanhã
eu não trabalho
não

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

a seita dos fracos


a seita dos fracos
para as lágrimas não existe
humores  ou temperamentos
jamais diga: “não temereis”
eu temo,  sou fraca
só se entende da dor
se permite a dor
e mesmo que não permita
que sinta, sente

não tente

o privilégio é saber-se
apaixonada e abandonada
amar é para fanáticos
e é tão lindo ser fraco

sábado, 17 de janeiro de 2015

amor


sim
palavra que dói
utopia das utopias
quando me lê
deveria gravar
te ouço Melamed falando
poesia

"amor"
palavra gasta
sem vincos
sem orelhas
traspassada
quase uma piada
truncada
que poucos riem

é a pedra-mor
esmaga
espatifa o grão
mas faz trigo
ser farinha

pro pão

a estrela e a esfinge


destrua o passado que me fez como sou
e mesmo em cacos e extirpada refletirei fria
nos seus olhos vazios de pedra, cimento e cal

pensa na imperfeição dos subjetivos pretéritos
e conjura-me intento além da razão perfeita
de seus enigmas vesgos de re-composição

na temperança vago quase branda
no meu corpo celeste extingo-me
e meus fragmentos envio como chuva

e banharei sua face e essa maldita babilônia
que tem por deserto, seu chão, seu limite
que minhas memórias sejam só espólios

fuja ao me ver derramada
dos monstros que criei e rememoro
pois só do pó ao pó estar sem ousadia

há séculos busco a musa manca
aquela que os olhos renegam por culpa
e que a farsa regurgita por já tê-la de cor


a letra A



agora é uma luz pálida
agora não tenho olhares gentis
essas mãos frias, inertes
trazem um corpo estrangeiro
é o século do silêncio

e os olhos novos mal vêem
onde estará meu pai?
onde estará minha mãe?
onde habitarão meus irmãos?

os carros não param
seus faróis acesos
a marcha acelerada
em vis sem semáforos
levam apressados para casa
e a minha está vazia

não há calor na noite
nem lembranças de acalanto
chove, só chove
e os canaviais bailam
é o túmulo de meu pai
é o abandono de minha mãe

agora é uma luz pálida
agora não tenho olhares gentis
e essas mãos frias, inertes
desistiram das palavras

é o segundo do meu silêncio

entre os dedos


não é possível saber do amanhã
como é  impossível amar
apenas quem nos quer bem
e sempre fazer escolhas certas

quem é inocente o bastante
para desperdiçar tempo
permitir que a vida vá
e permanecer com as mãos abertas
para que o vento leve tudo que tem?

a imperfeição é inerente
ao ser humano
e todos vendem suas verdades
por um preço aprazível
uma hora ou outra

confesse-me em sussurros
e sem embargar a voz
se algo seria diferente
se soltaria quem deseja
olhando partir impunemente

quando acordar olhe-se no espelho
considere o agora e todos os dias
o último dia de Urano
e restará apenas conservar

o que é essencial

domingo, 16 de fevereiro de 2014

voláteis


"no movimento perpétuo da matéria, a constatação de que somos mutantes" -Celso Mendes 

voláteis

por onde seguir trilhas as cegas?
meus pés na areia movediça
sentem-se acolhidos
como que sem medo do porvir

há tanto movimento falso
tanto absurdo real
que em meio ao perigo
sentem-se vivos

é o movimento circular
e irreversível
que joga o corpo todo
contra muros de concreto

mesmo que não saibam o motivo
destroem e se reconstroem
fluidos, sem medo
descoordenadamente

olha, olha bem fundo que no meio
do desconhecido se reconhecerá
tal qual quem ama por ver-se iluminado
dentro da retina de outrem

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

motim



tenho predileção por pés, mãos e orelhas
não que sejam essenciais ao romance
mas espero que um dia
possa retocar o ângulo perfeito
que já alcançamos na fuga

que os caminhos sejam menos tortuosos
que essas manhãs nubladas de verões extensos
e meus versos frágeis
não derretam diante dos calos de seus dedos
é que trabalha demais

tive preferência pelos vagabundos iluminados
mas eles só atraem meus olhos
enquanto a gana pede
a força de sua boca e verbo
me sugando a fala e os lábios

tenho adoração pelo silêncio
e se faz necessário em horas distantes
mas peço encarecida
que não me entregue a ele
enquanto habitar minhas medidas

não sou de histórias longas
mas preciso delas
e quando cansados, vazios
lembre-se que na maioria das vezes estamos

e não se esqueça  que tenho predileção
por pés, mãos e orelhas, pelo ângulo perfeito
da hecatombe vetorial que une nossos sexos
e que  as orelhas pedem mesmo
é sua fala rouca e embrulhada
passeando entre os pelos
de minha buceta

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

interlúdio




sobre a cômoda
descansa um rosário
a sala está fresca
e os mensageiros ondulam
com o vento fraco

peço pouco da vida
não espero quase nada
o cigarro treme
entre os dedos
desaprendi de chorar

não há brilho na caduquice
nem silêncio nas bardanas
o gato com patas para o alto
sabe sorrir dormindo
queria aprender com ele.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

soul-te




nunca deixei ilusões sob o travesseiro
nem sequer meu cheiro quis deixar 
de algum jeito pra jamais lembrar



sei que o melhor habitava 
os lençóis revirados
você entre minhas pernas 
e sua barba por fazer


sempre andei segura
quando via você partir
deixava um sorriso cair
e nem pedia pra você ficar


mesmo agora posso ver
aquele olhar saindo
e vi lágrimas rolando
e eu iria até o fim


um dia vai perceber que me vê 
em tudo que quer esquecer
vai desejar com força 
eu nunca ter existido

e nunca ter me conhecido