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segunda-feira, 2 de março de 2026

a dama de algodão

era ela quem te recebia
por mísero pão
às duas da manhã
depois do serão 
da madrugada

era ela quem nada pedia
e por vezes se dava
por indiscutível solidão
das paragens de ônibus
e a escuridão

deita criança
descansa que amanhã
eu não trabalho
não

do tutano de meus ossos



quando olha-me pelo podre
pelo nervo que te embolia
satirizo
sou livre que você não é

pobre de ti
pobre de ti

que me vê gorda por gula
que me vê feliz pela luxúria

oh, glória
ai que glória...

e sorrindo revelo 
mistérios gozosos
celebrados em terços
profanos e em língua
conhecida ou não

eles me chupam fundo
tiram tudo de mim
me roubam, me ferem
me saciam e me matam aos poucos

eu não tenho pressa
sou safada mesmo
dessas florzinhas
que dão nos beirais das casas

eles vão fundo
seja com o boca
ou com a faca
tiram meu tutano

e por vezes só isso 
te mata, te mata aos poucos
enquanto corrói por dentro
desapruma 

a inveja é uma coisa poderosa
mais poderosa que a morte
menos poderosa que a vida
e emparelha-se com a paixão