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domingo, 5 de abril de 2009

o aluir dos ares



o aluir dos ares

ventos alísios
tomam a capital
e a calmaria se vai
nas areias revoltas
duma praia de Fortaleza

partiram contigo
o sopro de relicários meus
e teu ventre solar
ainda anseia sonhos nossos
em pequenas tatuagens

ecoam abaixo do equador
as canções eólicas
que tentei aluir daqui
desse peito ressentido
e o som Aluisio sorri
manhãs de Iracema!


(para Aluisio Martins)

sexta-feira, 6 de março de 2009

limítrofe





devotei-me à traição
e amo-te em mosaicos conflitantes
resisto ao seu querer
e persisto dissociada
em dúvidas e orgias ficcionais
extremos passionais

soul-te inteira
sem limites tênues
errante e impulsiva
idealizo tudo
a crença utópica
do endeusar pagão
dilacero-te e peço-te
não me deixe morrer só!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

és amor idílico






















és amor idílico
desejo etílico
querer empírico
ilusão
em suma
sorte minha ter-te

não creio em nenhum dos signos
dessas palavras traiçoeiras
fato

o que sei
é que durante anos
mesmo ausente "tu eras"
e nessas horas
mesmo longe
continuas sendo
mágica

habitas em mim
e és mais do que sempre quis
real ou surreal
carne ou pintura abstrata de Dali
é bom ter-te luxúria e verbo

e essa minha fala já é poesia
soul-te
prosa tatuada nas atuações
és-me poesia tatuada no ventre.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009


cravei-te
em minha
boca falida

que beija-te o falo
e quer-te a vida!

sábado, 3 de janeiro de 2009

palavras são gametas



palavras são gametas
monstros com três tetas
chafurdando na lama
do poço de dentro

as retinas vão aos ossos
vistos de fora para o centro
mergulhados no mesmo
abismo bestial

e vivos obra e observador
são parte do jogo
pacto fraco
ou ardor franco

coabitam mundos
íntimos e difusos
absurdos e compatíveis

como preto e branco
em algum momento
convergem ao mesmo ponto
rabisco e visgo

um é o embuste
outro papel de embrulho
de olhos e letras
faz-se o não dito.

domingo, 28 de dezembro de 2008



a verve que me move
não aplaca a saudade
que toma-me
faz definhar o verbo

sou a mola gasta
de um ser cansado
de viver
e afoito por trovar!




(ilustração de minha autoria)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

parábola





em outras eras
lancei-me
subi o quanto pude
projétil e palavra
a esmo
sem ter-me

e divaguei na
vertigem vazia
da queda

qual pedra
ao encontrar
o solo

quebrei-me
em mil
para estar
no centro

e o repuxo
fez-me inércia
que na descoberta
sempre pede
a dor
do chão!


(ilustração de minha autoria)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

a realidade refuta




a realidade refuta
e redunda na ilusão
sim, aquela grata ,que nos fere
e nos cala
tal chibata em tronco de perdição

talvez eu fique presa
pelo serpentear e o repique
de tua voz de gargalo
tentando convencer-me
a despir-me de luta

e quem sabe por algum minuto
ou vários, permita-me ser surda
ou solta, sem castigos ou mentiras
só ou contigo em insanidade
entregue à leviandade, cobiça da carne

por hora, sinto-me bem por não ter cedido
aos devaneios de uma vida rapariga
escondo-me ainda nesses risos falsos
em torturas desmedidas
sob meia dúzia de saias floridas

ledo engano essas verdades absolutas
como se não houvesse antônimos
nesse cárcere interno, no inferno íntimo
que ata-me ao teu terno de risca-de-giz
e ao teu chapéu de aba curta

convenci-me da relatividade de tudo
sem as certezas ou dúvidas que nos cercam
quem não vive assim,
não sabe do absurdo
que cega o santo e inspira o vagabundo

eis que nesta hora incerta, sã
por tudo que pude ter e perdi
que valho-me da falta de fé e da descrença
dou-me algumas gotas de mortal veneno
pois a esperança é que me mata.


(imagem da artista plástica Iriene Borges)


desterro

como deflagar um talvez
de algo que não se fez?

como fugir da rendição
dos poros em arrepio?

imaculado fato profano
ainda não concretizado
faz perder as rédeas
de um suspiro insustentável
de um desterro perdido
entre tantos ais.

(imagem da artista plástica Iriene Borges)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

livro vermelho




quando falta-me
o rubor
é dia seco
como sangue denso
ensaio coágulo
escarlate
enfarto.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008



sou bem um desenho
preto e branco
caricato de um semblante
infame e descontente
de olhos virados
esbugalhados nos cantos
da face pária

nariz rasgando o céu
qual empino de revolta
e rajado de defeitos
cravados em dorso desavisado
serpente de aço
no subterrâneo metropolitano

indefino-me

talvez mero papel de abano
daqueles que se abrem
em conjugação perfeita
entregue à beleza
do movimento da mão alheia
assim no disfarce de minha vexa
por não ser mais que objeto


sou bem o desenho
opaco e acinzentado
rabisco de naif
sem olhos
sem face
preso na tentativa
de serventia
e não ter.
enviar recado cancelar apagar 20 ago
Pagu:
na vigilância discreta
quem sabe me esqueça
do que lateja

dores infindas de cobiça
carimbadas em olhos negros
sem retina
sem menina
eu
vazia por vontade

a angústia
de tua dinastia
avesso de overdose
sou embuste ambulante
sem personalidade

falo-te de teus rastros
dos hinos de adorar
dos mastros que fincaste
em minhas artérias

não há bandeiras
nem frontes
figas ou figueiras
nessa seringa
de ser

por hora
insira o silêncio
nesse tumbeiro de sonhos
que tornou-se paralisia.



(ilustração de minha autoria)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

morri duas vezes




ceguei-me do olho esquerdo
de tão desgastada
não quis ver as chagas
que eu mesma abri

antes de ferir-me
mais algumas vezes
calei a aflição
na tentativa da conversão

desferi golpes certeiros
contra carnes moles
e pensamentos impuros
até não conseguir respirar

só aprendi viver assim
consumindo-me em perdas
queda a queda
gota a gota
clamando pelo novo

mãos estrangeiras
buscaram a re-vida
em vão
morri duas vezes.


(ilustração de minha autoria)