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domingo, 6 de julho de 2008


nascem de minhas calcinhas
as rimas perfeitas e insolentes
uns diriam, "devassa, indecente!"
mas cabe a mim saber
o que teus olhos não percebem

nas entranhas de meu corpo enfermo
andam os gritos gozosos em pretérito imperfeito
ufanos, efêmeros e decadentes
mas há a certeza de meu doce fatal
o que tua carne não terá

nada em mim é óbvio
apenas minhas sanidades
utópicas, inválidas
mas deixo-te a dúvida
o que digo seria verdade ou mentira?

(ilustração de minha autoria)

sábado, 5 de julho de 2008


ainda me sobram
ovários estéreis
e palavras idem
não tenho mais artifícios para
(pro) criação
vagina e fala secas
rachadas no ventre
em inanição
não há cura para
(des) inspiração.


(ilustração de minha autoria)

ame-me mais algumas vezes
venere-me como um templo
de gozo efêmero
idolatre-me como se fosse um deus
pois estou de saída
não sei quando volto
não sei se volto
estou às voltas
com um novo mundo
cheio de vertigens
não sei se volto
nem me ame mais
por saber da verdade
não quero mais ninguém
comigo, ouvindo-me
se eu gritar
se eu gemer
se eu chorar
se eu morrer...
os dias que tivemos
foram gentis
mas deixe-me agora
num último beijo
e meu caminho estará livre
sem explicações
e se eu dormir
deixe-me outro beijo
farei só, meu caminho insano.

(ilustração de minha autoria)

quinta-feira, 3 de julho de 2008


em devaneio esgarça
engasga o verso afoito
do meu beijo
ao coito
da língua
ao ventre
quero-te meu
como o vento
de um sopro
que não posso pegar
mas sinto
arfar em pulmão
e leito
inflar o falo
e o peito.

(ilustração de minha autoria)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

meus lábios
selados em tua língua
são os versos da falta
escritos em prosa

estampastes o gozo
paraplégico
nesse farrapo vivo

minha lira
é gota dourada
expelida de ti

e desperdiçastes o vulto
de toda verve
em colos alheios.

sábado, 21 de junho de 2008

uma ópera introspectiva

















se ao menos me lembrasse
de quem sou por trás
da maquiagem branca e carmim

se soubesse dos cantos
desafinados
de minhas vontades

o ator em minha ópera
esquecida
falida

ensaio um sorriso falso
uma reverência
mas caio, ao curvar-me

uma comédia trágica
represento e vivo
nalgum teatro vazio

sem esperar aplausos
ou reconhecimento
antes das cortinas baixarem.

quinta-feira, 5 de junho de 2008


conhecerá a voz da loucura
na embriaguez
nas entranhas escuras
de sua carne lustrosa
em meio à idéias absurdas
e ao alívio da razão parcial

quem sabe ela se mostre
sem rancores e sem pudores
e ouvirá em si o incômodo
da tristeza sincera
e enfim compreenderá
a humilhação humana
sem escandalizar-se

quem sabe se entregue à tortura
da lucidez torpe
e assim, fora de eixo
simpatize-se pelas dores
que só a insanidade
pode causar.

(ilustração de minha autoria)

domingo, 11 de maio de 2008


a solidão não me aflige mais
esse estágio passageiro
de quando não me basto
vasto à sangria das horas fúteis
entregue à loucura do tempo

vivi o aconchego do estrangeiro
que se entrega ao banho amoroso
de um estar novo e febril
desenhei seus olhos famintos
e deleitei-me em elogios ao profano

mas ao me perceber só diante de mim
desisti da utopia do querer
não há dor maior que o amor
que nasce, goza e morre só
nuvem torpe que cega e chove

a vida me aflige mais
tormento constante de ser
mais um derrotado e ignorante
que crê firme na vitória com luta
e devota-se à paixão insana.


(ilustração de minha autoria)

sexta-feira, 2 de maio de 2008


amo-te,
no verso e reverso d'alma,
que nem sei se tenho

mas palpitam-me os ódios
e rancores todos
quando me nega

se há pureza é meu céu,
dia claro
e noite cravejada de estrelas

e estripada pela lua malvada
ela sim tem seus olhos,
não eu, invejo-a, portanto.


(ilustração de minha autoria)

sábado, 5 de abril de 2008


aos patativas e assarés
que se pintam em forma de cordéis
intensos, imprecisos
hipertensos, doidivanas
cedo o que há de mais raro

quero-te nas rimas profanas
em meus urais
já não há medidas
para o desmítico
para o encantamento maior
do bem querer

e meu colo sedento
procurou-te nos olhos
de teu criador
e só encontrou o desprezo
de um gozo preso

que não quer se soltar

mas ainda assim
gritava
berrava em vão
meu nome
pagão!
pagão!


(ilustração de minha autoria)

segunda-feira, 17 de março de 2008

descrevo em versos insanos
a poesia de meu corpo
que ri e zomba de mim
não me orienta mais
enquanto minha alma cala
e meus olhos se enfurecem
olhando para quem dissimulo ser
não há ninho que deseje mais que tua boca
não há colo que espere mais que o teu

as vidas que tive
já não me importam
nem me valem em contentamento
as vísceras querem o tormento
meus olhos
calmaria.

quarta-feira, 5 de março de 2008

alça minha esperança
extirpada de minha carne
dilacerada em visões altivas
de falésias medidas
pintadas em vivo rubro
voa ave e alcance
o que fui
enquanto entendia
o que é gostar.