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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

nos sertões estéreis

ainda dão a luz
de boitatás, caiporas
e uirapurus

alambiques de cachaça remida
donde tira-se pão e vida
dão falsa esperança de melhora

a embriaguez
o forró cheiroso
Severinas e suas meninas
deitam-se famintas
bucho cheio
de sonhos bobos
de filhos de lendas
de fios de renda

nos sertões estéreis
donde cana nasce
nada mais além de azoto.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009



heroínas

Dulcinéia, Pagu, Capitu
só seguem inclinadas
ao lado esquerdo da montaria
não se sabe por falta de peso
ou por desequilíbrio
à revelia

o galope alucinado
ainda ecoará
dentro daqueles sertões
entre a inércia e a luta
há quem diga que é amor
há quem diga que é doença

devastadas pelo dorso
choram e necessitam da luta
latejam em herança de sertão
fina, dura e parca fuga.

domingo, 2 de agosto de 2009

verdade plena (para Ricardo Passos)






















(retrato de Ricardo Passos, por Larissa Marques)

verdade plena
é o rasgo
é a febre
o grito

maldito!

não se contenta
apenas com o amor
instala-te feito doença
sou apenas paragem

cortar-te-ei com fúria
em ferida permanente
quelóide bendita
dor que falseia

uma cicatriz como prêmio!

essa exata vitória
que quase me cura
é a insistência
por querer machucar-te
e sobreviver a ti.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

derradeiro


















finda com o beijo
na testa ou lá
à beira impotente
o desejo que guardava sem mim
morde a fronha e sonha
que decadente!

consuma urgente
meu cheiro de jasmim
e seja encontro
de delicadezas do desamar
que de tanto amar-te,
tonto amar-te,
mar morto, náufrago

e saiba que enjoada, cá
navegarei, navegarei
meio descontente
com o que sobrou

mas, já vai tarde
tarde!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

minhas horas cinzas curvam-se


minhas horas cinzas curvam-se
diante de tuas palavras
não sei se dilacerantes ou sábias
beijam minha face
apoderam-se de meus ouvidos
tomam a quietude que me resta
afagam-me violentas
no gozo do entendimento
e diluem-se no ar
mas ecoam aqui
em meu peito arfante
até quando me acalentarão
e serão suficientes
para apagar as dores da falta?

domingo, 5 de abril de 2009

o aluir dos ares



o aluir dos ares

ventos alísios
tomam a capital
e a calmaria se vai
nas areias revoltas
duma praia de Fortaleza

partiram contigo
o sopro de relicários meus
e teu ventre solar
ainda anseia sonhos nossos
em pequenas tatuagens

ecoam abaixo do equador
as canções eólicas
que tentei aluir daqui
desse peito ressentido
e o som Aluisio sorri
manhãs de Iracema!


(para Aluisio Martins)

sexta-feira, 6 de março de 2009

limítrofe





devotei-me à traição
e amo-te em mosaicos conflitantes
resisto ao seu querer
e persisto dissociada
em dúvidas e orgias ficcionais
extremos passionais

soul-te inteira
sem limites tênues
errante e impulsiva
idealizo tudo
a crença utópica
do endeusar pagão
dilacero-te e peço-te
não me deixe morrer só!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

és amor idílico






















és amor idílico
desejo etílico
querer empírico
ilusão
em suma
sorte minha ter-te

não creio em nenhum dos signos
dessas palavras traiçoeiras
fato

o que sei
é que durante anos
mesmo ausente "tu eras"
e nessas horas
mesmo longe
continuas sendo
mágica

habitas em mim
e és mais do que sempre quis
real ou surreal
carne ou pintura abstrata de Dali
é bom ter-te luxúria e verbo

e essa minha fala já é poesia
soul-te
prosa tatuada nas atuações
és-me poesia tatuada no ventre.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009


cravei-te
em minha
boca falida

que beija-te o falo
e quer-te a vida!

sábado, 3 de janeiro de 2009

palavras são gametas



palavras são gametas
monstros com três tetas
chafurdando na lama
do poço de dentro

as retinas vão aos ossos
vistos de fora para o centro
mergulhados no mesmo
abismo bestial

e vivos obra e observador
são parte do jogo
pacto fraco
ou ardor franco

coabitam mundos
íntimos e difusos
absurdos e compatíveis

como preto e branco
em algum momento
convergem ao mesmo ponto
rabisco e visgo

um é o embuste
outro papel de embrulho
de olhos e letras
faz-se o não dito.

domingo, 28 de dezembro de 2008



a verve que me move
não aplaca a saudade
que toma-me
faz definhar o verbo

sou a mola gasta
de um ser cansado
de viver
e afoito por trovar!




(ilustração de minha autoria)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

parábola





em outras eras
lancei-me
subi o quanto pude
projétil e palavra
a esmo
sem ter-me

e divaguei na
vertigem vazia
da queda

qual pedra
ao encontrar
o solo

quebrei-me
em mil
para estar
no centro

e o repuxo
fez-me inércia
que na descoberta
sempre pede
a dor
do chão!


(ilustração de minha autoria)