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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Segunda elegia


























o homem perturbado
dialoga com a vida
e há quem diga
que é um baseado
ou que é heroína
mas ele encena
a luta diária
de se dar por nada, na perda
no movimento do outros.

o homem entende
com seus olhos invertidos
vê o que ninguém mais consegue
enxuga seus lábios tardios
enfastiados de agonia
para tentar ser feliz
vomita Euclides da Cunha
e drogas ilícitas
para se livrar das grades.

o homem interna-se
só há grades nos outros
no mundo e em si
no retrair do músculo
na tensa paz vazia
nas ocupações diárias
tenta ser livre
e solta seu verbo
na Jaceguaí.

o homem olha-se
e não vê-se completo
vê-se coagido e liberto
e dança parado
com a fumaça do fumo
e se vai com ela
como se fosse o único
a ver, a sentir, amar e perder
tudo que desejou na vida.


(imagem de minha autoria)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

a partilha


partida em duas sem se dividir
e a repressão corre na veia
como picada sob faca
a carne de segunda

fatiada de maneira escusa
sem dó ou piedade
não é o extirpado que grita
reclamando o colo decapitado

quem chora é o progenitor
na ignorância do fato
de estar sendo bifurcado
feito mote mal fadado

a partilha foi feita
como numa missa dominical
todos saem inteiros
e apenas um corpo distribuído

a conta máxima do silêncio
do sangue que corre desvalido
misturado com água e lágrimas
rumo ao ralo do banheiro social.

sábado, 3 de outubro de 2009



discurso do tempo

ponteiros tristes flutuam
sobre o sofá da sala
em sentido anti-horário
pairam desistentes
em horas desfeitas

quinze, vinte, ela.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

reflexo























“Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.” Jean-Paul Sartre

ousei ver além mar
e encontrei-me perdida
entre o labirinto dos olhos
e a luxúria das carnes

descobri mais que par de nós
entoei hinos em louvor
ao deus Príapo encarnado
despido de tolos pecados

válidos e ávidos os refrões
em gozo ecoavam na pele
cada poro nu, eriçado
era Paris ao som de Piaf

Jean abriu-me os horizontes
e vi-me completa em espelhos
sem sombra, sem ar e rochedos
tive-te em meus dedos

e deixei-te voar

vá meu reflexo aflito
mostrar-se em dissabores
que a tua-minha imagem
há de um dia nos encantar.

Meu vício



Poesias em cápsulas

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

nos sertões estéreis

ainda dão a luz
de boitatás, caiporas
e uirapurus

alambiques de cachaça remida
donde tira-se pão e vida
dão falsa esperança de melhora

a embriaguez
o forró cheiroso
Severinas e suas meninas
deitam-se famintas
bucho cheio
de sonhos bobos
de filhos de lendas
de fios de renda

nos sertões estéreis
donde cana nasce
nada mais além de azoto.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009



heroínas

Dulcinéia, Pagu, Capitu
só seguem inclinadas
ao lado esquerdo da montaria
não se sabe por falta de peso
ou por desequilíbrio
à revelia

o galope alucinado
ainda ecoará
dentro daqueles sertões
entre a inércia e a luta
há quem diga que é amor
há quem diga que é doença

devastadas pelo dorso
choram e necessitam da luta
latejam em herança de sertão
fina, dura e parca fuga.

domingo, 2 de agosto de 2009

verdade plena (para Ricardo Passos)






















(retrato de Ricardo Passos, por Larissa Marques)

verdade plena
é o rasgo
é a febre
o grito

maldito!

não se contenta
apenas com o amor
instala-te feito doença
sou apenas paragem

cortar-te-ei com fúria
em ferida permanente
quelóide bendita
dor que falseia

uma cicatriz como prêmio!

essa exata vitória
que quase me cura
é a insistência
por querer machucar-te
e sobreviver a ti.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

derradeiro


















finda com o beijo
na testa ou lá
à beira impotente
o desejo que guardava sem mim
morde a fronha e sonha
que decadente!

consuma urgente
meu cheiro de jasmim
e seja encontro
de delicadezas do desamar
que de tanto amar-te,
tonto amar-te,
mar morto, náufrago

e saiba que enjoada, cá
navegarei, navegarei
meio descontente
com o que sobrou

mas, já vai tarde
tarde!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

minhas horas cinzas curvam-se


minhas horas cinzas curvam-se
diante de tuas palavras
não sei se dilacerantes ou sábias
beijam minha face
apoderam-se de meus ouvidos
tomam a quietude que me resta
afagam-me violentas
no gozo do entendimento
e diluem-se no ar
mas ecoam aqui
em meu peito arfante
até quando me acalentarão
e serão suficientes
para apagar as dores da falta?

domingo, 5 de abril de 2009

o aluir dos ares



o aluir dos ares

ventos alísios
tomam a capital
e a calmaria se vai
nas areias revoltas
duma praia de Fortaleza

partiram contigo
o sopro de relicários meus
e teu ventre solar
ainda anseia sonhos nossos
em pequenas tatuagens

ecoam abaixo do equador
as canções eólicas
que tentei aluir daqui
desse peito ressentido
e o som Aluisio sorri
manhãs de Iracema!


(para Aluisio Martins)

sexta-feira, 6 de março de 2009

limítrofe





devotei-me à traição
e amo-te em mosaicos conflitantes
resisto ao seu querer
e persisto dissociada
em dúvidas e orgias ficcionais
extremos passionais

soul-te inteira
sem limites tênues
errante e impulsiva
idealizo tudo
a crença utópica
do endeusar pagão
dilacero-te e peço-te
não me deixe morrer só!