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domingo, 17 de janeiro de 2010

















garrafas de bebida barata
continuam a nos afogar
a nos encantar como mitos
que sonham e chamam
para o fundo quase ludibriando

mitos se desfazem após a maresia
e a cirrose corrosiva ataca
olhos e pulmões a ponto
de cegar e sufocar
enquanto mais um dia amanhece

nessa hora as ondas trazem
o que o sábio mar já não quer
garrafas e corpos vazios
já sem esperanças vãs
idos sonhos de mudança


(imagem de minha autoria)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

goteira






















escorreguei gotejando feito
chuva nas pedras do incompreendido
vãos entremeios do ignorar

há cura para o cansaço
é o sussurro seu no meu ouvido
é a mentira que me conta

já não corro da chuva, da nuvem cinza
nem da esperança que me cega
ainda tenho olhos esbugalhados

eles passam entre seus dedos
como as contas do rosário
de minha avó em devoção

lembro-me ainda do choro
de meu reflexo no seu olho
conjugações não me emocionam

só as gotas
distante me faz ler poesias
e tento reescrevê-las num ato falho
as lágrimas amargas falham em face vazia

jamais tentei o distanciamento
e até orei meu abismo aos bárbaros
que caçoaram de mim

e se consegue ver-me em seus olhos
fure-os na ira da gota
não estou pronta para nós.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
















sob os horizontes
tombam olhos famintos
vontades permissivas
exércitos sem causa

calam-se sob o tempo
essas lutas vãs
ecos de derrotas
mortos e famintos

e todo o resto se amontoa
quando os amanheceres
se tornam garrafas vazias
de bebida barata.

(imagem de minha autoria)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

















no último sonho
conto que não há mais nada
a heroína é o cansaço
que arregaço em minhas veias
fundidas ao pó da carne

dilacerada e entregue aos mortos
vou seguindo teus rumos
agregando-me devoto
aos pesadelos que desconheces

na pupila dilatada o universo
que engana
na finitude humana salva-nos
a ignorante batalha vã
e a vitória do desconhecido.

(imagem de minha autoria)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

sobre a embriaguez...




























o tédio do doce em close
olhos vazios
voltados para o nada
ostracista

não fosse o visgo
das horas que se arrastam
talvez vencer-se-ia
por distração

maldito vício
que impulsiona as vontades
não fossem as faltas
qual o sabor da embriaguez?

(imagem de minha autoria)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


























no quinto sonho
as janelas estavam fechadas
e o chá era servido frio
não gelado
calados e sem juras
não se olhavam
o sentido era verde
como o sachê
dentro de suas xícaras

(imagem de minha autoria)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



Uma vida cinza
Escrita com mãos pálidas
Com unhas carmim
Os olhos apáticos
Poemas traumáticos,
Linfáticos,
Catatônicos...
A miopia desconhece
A vastidão inóspita
De uma vida entre o negro
E o nada.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

uma ópera introspectiva

















se ao menos me lembrasse
de quem sou por trás
da maquiagem branca e carmim

se soubesse dos cantos
desafinados
de minhas vontades

o ator em minha ópera
esquecida
falida

ensaio um sorriso falso
uma reverência
mas caio, ao curvar-me

uma comédia trágica
represento e vivo
nalgum teatro vazio

sem esperar aplausos
ou reconhecimento
antes das cortinas baixarem.

domingo, 29 de novembro de 2009

de minha origem
pouco sei
pai comerciante
mãe costureira

ele doava o tecido
e ela o costurava

talvez por isso
o alinhavo

linhagem
de casta indefinida

nada sei.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009


rubro

queima a palavra presa na garganta
que o plexo venoso não espera represas
arrebenta o que envergonha
descarta o obsoleto
como quem verte câimbras falhas
o reflexo rugoso do desistir
é coágulo e seca na veia de peito alheio
deixando-o à míngua.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

















isso que me vem
em pequenas caixas
nada mais que marcha
para o furico mais cretino
do escândalo
faíscas

só incendeiam e apagam
riscam traçado fino
o caminhar nulo
repetitivo dos palitos
de ponta escarlate
encandeiam

demasiado cretinas
intuições abalizadas
de quem nada quer saber
compartimentados

natimortos espalhavam-se
no chão feito gravetos
mal queimados
moedinhas de um centavo
brincando
de quem se queima primeiro.
batismais
os tais
senhores fatais

fósforos

terça-feira, 3 de novembro de 2009

ilusões de ótica


(ilustração de Francis Picabia)


as taças da bebida verde
dizem que é fogo
os basculantes avessos
falam em vômitos
os homens juram que é sexo
e as moças sonham que é amor

digo que é fumaça

a bebedeira engana
a náusea repele
a jura mente
os sonhos pervertem
a fumaça disfarça

e na bruma
entre espelhos embaçados
seres descolorados procriam
sorrisos desbotados
dispostos em janelas cinzas
voltadas para mundos de chaminés.