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sábado, 17 de janeiro de 2015

a estrela e a esfinge


destrua o passado que me fez como sou
e mesmo em cacos e extirpada refletirei fria
nos seus olhos vazios de pedra, cimento e cal

pensa na imperfeição dos subjetivos pretéritos
e conjura-me intento além da razão perfeita
de seus enigmas vesgos de re-composição

na temperança vago quase branda
no meu corpo celeste extingo-me
e meus fragmentos envio como chuva

e banharei sua face e essa maldita babilônia
que tem por deserto, seu chão, seu limite
que minhas memórias sejam só espólios

fuja ao me ver derramada
dos monstros que criei e rememoro
pois só do pó ao pó estar sem ousadia

há séculos busco a musa manca
aquela que os olhos renegam por culpa
e que a farsa regurgita por já tê-la de cor


a letra A



agora é uma luz pálida
agora não tenho olhares gentis
essas mãos frias, inertes
trazem um corpo estrangeiro
é o século do silêncio

e os olhos novos mal vêem
onde estará meu pai?
onde estará minha mãe?
onde habitarão meus irmãos?

os carros não param
seus faróis acesos
a marcha acelerada
em vis sem semáforos
levam apressados para casa
e a minha está vazia

não há calor na noite
nem lembranças de acalanto
chove, só chove
e os canaviais bailam
é o túmulo de meu pai
é o abandono de minha mãe

agora é uma luz pálida
agora não tenho olhares gentis
e essas mãos frias, inertes
desistiram das palavras

é o segundo do meu silêncio

entre os dedos


não é possível saber do amanhã
como é  impossível amar
apenas quem nos quer bem
e sempre fazer escolhas certas

quem é inocente o bastante
para desperdiçar tempo
permitir que a vida vá
e permanecer com as mãos abertas
para que o vento leve tudo que tem?

a imperfeição é inerente
ao ser humano
e todos vendem suas verdades
por um preço aprazível
uma hora ou outra

confesse-me em sussurros
e sem embargar a voz
se algo seria diferente
se soltaria quem deseja
olhando partir impunemente

quando acordar olhe-se no espelho
considere o agora e todos os dias
o último dia de Urano
e restará apenas conservar

o que é essencial

domingo, 16 de fevereiro de 2014

voláteis


"no movimento perpétuo da matéria, a constatação de que somos mutantes" -Celso Mendes 

voláteis

por onde seguir trilhas as cegas?
meus pés na areia movediça
sentem-se acolhidos
como que sem medo do porvir

há tanto movimento falso
tanto absurdo real
que em meio ao perigo
sentem-se vivos

é o movimento circular
e irreversível
que joga o corpo todo
contra muros de concreto

mesmo que não saibam o motivo
destroem e se reconstroem
fluidos, sem medo
descoordenadamente

olha, olha bem fundo que no meio
do desconhecido se reconhecerá
tal qual quem ama por ver-se iluminado
dentro da retina de outrem

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

motim



tenho predileção por pés, mãos e orelhas
não que sejam essenciais ao romance
mas espero que um dia
possa retocar o ângulo perfeito
que já alcançamos na fuga

que os caminhos sejam menos tortuosos
que essas manhãs nubladas de verões extensos
e meus versos frágeis
não derretam diante dos calos de seus dedos
é que trabalha demais

tive preferência pelos vagabundos iluminados
mas eles só atraem meus olhos
enquanto a gana pede
a força de sua boca e verbo
me sugando a fala e os lábios

tenho adoração pelo silêncio
e se faz necessário em horas distantes
mas peço encarecida
que não me entregue a ele
enquanto habitar minhas medidas

não sou de histórias longas
mas preciso delas
e quando cansados, vazios
lembre-se que na maioria das vezes estamos

e não se esqueça  que tenho predileção
por pés, mãos e orelhas, pelo ângulo perfeito
da hecatombe vetorial que une nossos sexos
e que  as orelhas pedem mesmo
é sua fala rouca e embrulhada
passeando entre os pelos
de minha buceta

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

interlúdio




sobre a cômoda
descansa um rosário
a sala está fresca
e os mensageiros ondulam
com o vento fraco

peço pouco da vida
não espero quase nada
o cigarro treme
entre os dedos
desaprendi de chorar

não há brilho na caduquice
nem silêncio nas bardanas
o gato com patas para o alto
sabe sorrir dormindo
queria aprender com ele.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

soul-te




nunca deixei ilusões sob o travesseiro
nem sequer meu cheiro quis deixar 
de algum jeito pra jamais lembrar



sei que o melhor habitava 
os lençóis revirados
você entre minhas pernas 
e sua barba por fazer


sempre andei segura
quando via você partir
deixava um sorriso cair
e nem pedia pra você ficar


mesmo agora posso ver
aquele olhar saindo
e vi lágrimas rolando
e eu iria até o fim


um dia vai perceber que me vê 
em tudo que quer esquecer
vai desejar com força 
eu nunca ter existido

e nunca ter me conhecido

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

setembro-me




incontáveis vezes ao ano
e sou capaz de me apaixonar
pelos doze meses
numa mesma palavra prolixa
monótona e com todo signo
desabrocho

poderia fingir uma enxaqueca
e dar-me uma boa noite de sono
despregada da vida
amarrada na sobriedade

mas a bebida pede Baco
e nasci para a entrega
larga e permissiva
sei que amar é ledo engano
mas sou rosa
defeituosa e ínfima
nessa quase perfeição

o vento me invade
quase raivoso
abre pétalas minhas
com pouco jeito
e gemendo de um prazer
quase hediondo
entrego-me à ilusão primaveril

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

monte megido




no vale da decisão
tombo de assalto
meu olho esquerdo
que ignora todos
os filhos do sol

o direito julgo
o grande vencedor
que trará redenção
mas a água não benze
pobre insolente sou

tudo que me é grato
salta do lado errado
e alimenta meu ego
essa satisfação é
sinônimo de felicidade

não sendo isso o Éden
hei de desejar o inferno
e lutar nas linhas
contrárias pelo mal
no monte megido.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

anistia




as alegorias presas na inércia
sucumbem à letargia
tudo é quieto e confortável
quando presume-se cansaço
mas nada retira-se do breviário

é o desmembrar da quietude
sob a sombra da indiferença
é o descanso que desvela
o apodrecer solitário
nessa cela

uma mansidão cativa
que não se deu conta
do extinguir da liberdade

ouso dizer de sua inexistência

quarta-feira, 17 de julho de 2013

nada faz calendários mais breves


nada faz calendários breves
ou queima os anos
como pavio de vela inútil

uma overdose
cheirada sobre
o santo sudário
nos dias, nas horas
de calvário
um pulo, um mergulho
talvez um atalho de terra batida
ao lado da estrada asfaltada

até as bulas de remédio
prometem
o que já não podem cumprir
apaziguar dores
salvar-me da mudez de sentido
da falta de sinônimos
para sofrimentos surdos.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

incisivo



Série Arcada

incisivo

I
cortante movimento de prazer
sob ele curvam sólidos
refestelam líquidos
pervertem aborrecidas virgens
em solstícios sexistas

entre lábios e clitóris
confronta a sede dialética
coincide e confunde-se
em exultações e rigidez

conas e bocas são iguais
entre incisivos subvertem
vigoram como armadilhas
e caem em ciladas
misoginias e outros jogos

entregam-se à gula
não têm pudor
vingam-se em emboscadas
de desejos e gana.