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sábado, 14 de abril de 2012

a folha

vê como é livre a folha

que vai e vem

sem se prender

sem temer a voar

é a música do perder

e vai e desaparece

rodopia e reaparece

como uma contradança

entra em parafuso

e some e se vê

sabe bem dos sussurros

que o ar dá ao lhe levar

e a tola roda, roda

olhe a folha cansada

que se entrega a sorrir

sem se preocupar

com o que é

oh, pobre folha

que se atreve a voar

com a força do vento

e se contamina com

essa onda quente do vento

e está tão entregue

que já nem é

quinta-feira, 15 de março de 2012

le fabuleux
























possuo uma anomalia

em meu coração

ele não esquece nada

e traz tudo que vivi

o olhar ainda é assustado

o inocente garoto

de lábios trêmulos

no nosso primeiro beijo

uma oração com dedicatória:

"ao nosso jovem e amado filho"

a minha dedicatória só está aqui

e redunda em silêncio e não foi:

"Marco Fernando saudades sempre"

hoje virei a velha caixa

de preciosidades do passado

e entre elas seu rosto jovem

uma fotografia antiga

de sua missa de sétimo dia.

quarta-feira, 14 de março de 2012

ruínas


destruíram o belo

e ainda sobraram escombros

é o tempo de repouso

para os exaustos por tentar

desse silêncio que fere e isola

trago imagens de tentativas

sólidas e venenosas

há um canto escuro

onde a luz não toca

mas os olhos enxergam

com uma exatidão doente

terça-feira, 6 de março de 2012

artificial






















já não suporto essa natureza frágil
que me inspira amores eunucos
e perfumes presos a lendas

tentei por anos retirar a bonequinha
loura e perfeita que me impuseram
velei e enterrei todas em meu quintal

e de certa forma elas voltam mortas
para atacar essas pequenas verdades
quem dera a beleza não valesse nada

tentei ser Monalisa de sorriso mestiço
sem adornos nos olhos, sem vaidades
seguem-me peitos sal e risos postiços.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

anelo


























como se fosse
algo inteiro
quase abocanha
o vazio
isso me assusta
não pretendo blefar
e ser injusta
mas sua boca amarga
traz a essência
do baldio
não me é dezembro
soa-me mais
como fevereiro

domingo, 1 de janeiro de 2012

sol de janeiro e ano inteiro


























no acalanto de sua chegada
descobriu-me mulher
giro em sua órbita
provoca em mim estações
e desconhece-me esfera

causou-me amanheceres meridianos
as belas horas brilharam aqui
vogaram tanto e como que declinaram
no desespero de seu poente
ah, meu amor, minhas dúvidas!

seus lábios queimaram os meus
fizeram juras que não podem cumprir
não sou júpiter ou urano
nem sou saturno e em segredo
trago seu anel no polegar esquerdo

meus olhos devotei aos dias
que choram durante a noite
é madrugada agora
sinto a frieza da solidão
um medo tão meu

obedeço a ordem que impôs
apertam-me suas margens
privam-me do seu calor
tento esquecer o que foi
todas as manhãs.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sei de meus calos



















mesmo na revolta da chuva
ela quem faz barulho
sufoco-me em silêncio
em minha solidão adulta
no crime da conveniência
sou boneco de ventríloquo


enterrei os corpos
de minhas bonecas infantis
e virei cada uma delas
sem sentimento,
sem fala,
usada e esquecida
sob sete palmos de chão.

domingo, 30 de outubro de 2011

escarlate



enquanto todos os sonhos
se vão com o vento seco
e com as folhas avermelhadas
que parecem rir de bobagens
arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta
imaginando que nada poderá
tirar a luxúria de seus olhos
que miram a vastidão horizontal
de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces falsas
que gargalham entre si
e ela jura que é amor

queria voltar à inocência
que havia antes do vento
arrancar-me as folhas
antes das tempestades
levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces de si
e gargalha entre imagens
e ela sabe que é amor.




(chica de la fotografia: Constanza Ofelia Rodriguez)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Bonjour Tristesse"


























sábado deveria acordar
no mínimo Jean Seberg
ou Scarlett Johansson
e me diz: bom dia, princesa!

isso é pela devoção
a um inveterado sem cura
o belo me corrompe
sou artista, poeta

guarda seus melhores beijos
em gargalos de garrafa qualquer
que nelas reinvento
e enquanto renasce, eu morro

não há encantamento
sem mácula
ou sentimento
que não castre

calendários anacrônicos
ditam-nos sentenças puras
de não ser, sendo
viver morrendo

desce mais um
bom dia, Tristeza!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

pinga




























"Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais." Caio Fernando Abreu


há um som na espera
os ponteiros marcham distantes
e os homens mal sabem do silêncio
dos jantares em família

almeja-se o calar sem culpa
a solidão perfeita
onde não se perde de si
e se encontre em egoísmo torpe

a torneira da pia pinga sobre um copo
dá o contraponto do que se passa aqui
o território traz divisa transparente e frágil
não suporta mais do que lhe cabe.


fotografia de Anderson Costa

substantivo abstrato

















é quase primavera
e dela não há nada aqui
sangra desse outono
ainda seco que dilacera
que encerra um ciclo
de sofrimento e quer inexistir

feito palavras vazias
e retórica falha
a terra insiste no despeito
que brota inerte, folha velha
que pelo vento se deixa levar

e o cheiro da podridão toma as narinas
não é exemplar animal ou vegetal
não é jangada, nem flor de macieira
nem tão pouco sol alto
ou derrame de lobeira

mal se sabe se é.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

monções

não há argumentos neste lugar
só olhos vesgos de um mentir torto
tão verdadeiro quanto notas de seis
pois as de dois já existem

não peço nada além de sua presença
e nem assim se sente satisfeito
com o desprendimento grevista
sem platéias ou discurso inflamado

vermelhos, não de dor e sim de torpor
os lábios riem e mangam de repique
o piquete de elogios vazios
e críticas destrutivas

acusa-me: "mentirosa, mentirosa"
como se ser falsário e ludibriador
fosse mérito apenas dos impuros
e cruéis de plantão

nunca tive medo das palavras atravessadas
cheias de desprezo e de escárnio
pois quem desdenha em algum momento
quer apenas adquirir algo com preço de lambuja

essa liberdade sonora que prega
é tão tênue quanto fumaça no vento
e saiba que nada se perdeu
é a velha lei da relatividade
ou talvez a farpa no olho do outro

estamos sempre presos a algo que desgostamos
ou que no mínimo não nos orgulhamos muito
e a maioria dos castelos são de areia
que a onda da realidade teima em derrubar

para quem não gosta de clichês
a vida ensina que poucos saem deles
e perdi a conta de quantas rimas pobres
habitam meus poemas de baixa qualidade
e não paro mais pra contar

já não me interessa quem é
ou de quanto espaço precisa
não temo estrelas ou buracos negros
como digo as coisas acabam sem deixar de ser

e mais uma vez me olha nos olhos
simulando uma quase verdade
como se já não conhecesse a marcha
aquela de arranque que precede a fuga

tantas vezes já vi outros aqui
fazendo o mesmo que faz agora
não sabe pedir ou implorar
mas se dá à demagogia verborrágica
do confronto sem causa

desaprendi de esperar
mas nada mais há além do tempo
e ele passa rápido demais
para que eu fique só olhando.