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terça-feira, 1 de maio de 2012

idiomas

se é palavra abrupta
em celeumas calo
se desagrada-me o que escuto
de certa forma são estrangeiras
nos ouvidos tenho escudos
e certos sotaques me acalmam

mas se a língua é gentil
e até invasiva
se em silêncio convencer
meus orifícios
entrego-me ao vício
de sentir apenas meu umbigo

quinta-feira, 15 de março de 2012

le fabuleux
























possuo uma anomalia

em meu coração

ele não esquece nada

e traz tudo que vivi

o olhar ainda é assustado

o inocente garoto

de lábios trêmulos

no nosso primeiro beijo

uma oração com dedicatória:

"ao nosso jovem e amado filho"

a minha dedicatória só está aqui

e redunda em silêncio e não foi:

"Marco Fernando saudades sempre"

hoje virei a velha caixa

de preciosidades do passado

e entre elas seu rosto jovem

uma fotografia antiga

de sua missa de sétimo dia.

terça-feira, 6 de março de 2012

artificial






















já não suporto essa natureza frágil
que me inspira amores eunucos
e perfumes presos a lendas

tentei por anos retirar a bonequinha
loura e perfeita que me impuseram
velei e enterrei todas em meu quintal

e de certa forma elas voltam mortas
para atacar essas pequenas verdades
quem dera a beleza não valesse nada

tentei ser Monalisa de sorriso mestiço
sem adornos nos olhos, sem vaidades
seguem-me peitos sal e risos postiços.

domingo, 1 de janeiro de 2012

sol de janeiro e ano inteiro


























no acalanto de sua chegada
descobriu-me mulher
giro em sua órbita
provoca em mim estações
e desconhece-me esfera

causou-me amanheceres meridianos
as belas horas brilharam aqui
vogaram tanto e como que declinaram
no desespero de seu poente
ah, meu amor, minhas dúvidas!

seus lábios queimaram os meus
fizeram juras que não podem cumprir
não sou júpiter ou urano
nem sou saturno e em segredo
trago seu anel no polegar esquerdo

meus olhos devotei aos dias
que choram durante a noite
é madrugada agora
sinto a frieza da solidão
um medo tão meu

obedeço a ordem que impôs
apertam-me suas margens
privam-me do seu calor
tento esquecer o que foi
todas as manhãs.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sei de meus calos



















mesmo na revolta da chuva
ela quem faz barulho
sufoco-me em silêncio
em minha solidão adulta
no crime da conveniência
sou boneco de ventríloquo


enterrei os corpos
de minhas bonecas infantis
e virei cada uma delas
sem sentimento,
sem fala,
usada e esquecida
sob sete palmos de chão.

domingo, 30 de outubro de 2011

escarlate



enquanto todos os sonhos
se vão com o vento seco
e com as folhas avermelhadas
que parecem rir de bobagens
arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta
imaginando que nada poderá
tirar a luxúria de seus olhos
que miram a vastidão horizontal
de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces falsas
que gargalham entre si
e ela jura que é amor

queria voltar à inocência
que havia antes do vento
arrancar-me as folhas
antes das tempestades
levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra
assiste passiva sua imagem
espelhada em mil faces de si
e gargalha entre imagens
e ela sabe que é amor.




(chica de la fotografia: Constanza Ofelia Rodriguez)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Bonjour Tristesse"


























sábado deveria acordar
no mínimo Jean Seberg
ou Scarlett Johansson
e me diz: bom dia, princesa!

isso é pela devoção
a um inveterado sem cura
o belo me corrompe
sou artista, poeta

guarda seus melhores beijos
em gargalos de garrafa qualquer
que nelas reinvento
e enquanto renasce, eu morro

não há encantamento
sem mácula
ou sentimento
que não castre

calendários anacrônicos
ditam-nos sentenças puras
de não ser, sendo
viver morrendo

desce mais um
bom dia, Tristeza!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

pinga




























"Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais." Caio Fernando Abreu


há um som na espera
os ponteiros marcham distantes
e os homens mal sabem do silêncio
dos jantares em família

almeja-se o calar sem culpa
a solidão perfeita
onde não se perde de si
e se encontre em egoísmo torpe

a torneira da pia pinga sobre um copo
dá o contraponto do que se passa aqui
o território traz divisa transparente e frágil
não suporta mais do que lhe cabe.


fotografia de Anderson Costa

substantivo abstrato

















é quase primavera
e dela não há nada aqui
sangra desse outono
ainda seco que dilacera
que encerra um ciclo
de sofrimento e quer inexistir

feito palavras vazias
e retórica falha
a terra insiste no despeito
que brota inerte, folha velha
que pelo vento se deixa levar

e o cheiro da podridão toma as narinas
não é exemplar animal ou vegetal
não é jangada, nem flor de macieira
nem tão pouco sol alto
ou derrame de lobeira

mal se sabe se é.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

monções

não há argumentos neste lugar
só olhos vesgos de um mentir torto
tão verdadeiro quanto notas de seis
pois as de dois já existem

não peço nada além de sua presença
e nem assim se sente satisfeito
com o desprendimento grevista
sem platéias ou discurso inflamado

vermelhos, não de dor e sim de torpor
os lábios riem e mangam de repique
o piquete de elogios vazios
e críticas destrutivas

acusa-me: "mentirosa, mentirosa"
como se ser falsário e ludibriador
fosse mérito apenas dos impuros
e cruéis de plantão

nunca tive medo das palavras atravessadas
cheias de desprezo e de escárnio
pois quem desdenha em algum momento
quer apenas adquirir algo com preço de lambuja

essa liberdade sonora que prega
é tão tênue quanto fumaça no vento
e saiba que nada se perdeu
é a velha lei da relatividade
ou talvez a farpa no olho do outro

estamos sempre presos a algo que desgostamos
ou que no mínimo não nos orgulhamos muito
e a maioria dos castelos são de areia
que a onda da realidade teima em derrubar

para quem não gosta de clichês
a vida ensina que poucos saem deles
e perdi a conta de quantas rimas pobres
habitam meus poemas de baixa qualidade
e não paro mais pra contar

já não me interessa quem é
ou de quanto espaço precisa
não temo estrelas ou buracos negros
como digo as coisas acabam sem deixar de ser

e mais uma vez me olha nos olhos
simulando uma quase verdade
como se já não conhecesse a marcha
aquela de arranque que precede a fuga

tantas vezes já vi outros aqui
fazendo o mesmo que faz agora
não sabe pedir ou implorar
mas se dá à demagogia verborrágica
do confronto sem causa

desaprendi de esperar
mas nada mais há além do tempo
e ele passa rápido demais
para que eu fique só olhando.

o que importa?

se me trará um aperto de mão
um sorriso amigo que já não quero
e não direi mais nada para ouvir
o eco de seu nome pelas cidades sitiadas

percebe o fato de ser um homem
que mal se encara de frente?
percebe o sufoco de ser um homem
que luta enquanto todo o resto sangra?

por minha palavra é livre
poderia rasgar-me mas vejo
sua imagem cada vez que chove
e seus olhos são nuvens
e só me resta a chuva e essa saudade

se existe a fábula certa
recheada de sonhos irreais
da felicidade perfeita
agora é a poeira do Planalto Central
e logo será a chuva que não para

por seis meses...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

arauto


























navegaria
através de tempestades
se não fosse tão incrédula
e presa a esse tempo

se o fizesse
por ti, meu amado
minha nau não
teria porto algum

o oceano me levaria
a vastas latitudes
e me esqueceria
das longitudes

sem bússola me perderia
na imensidão do caos
e a arrebentação
me enganaria

as âncoras
seriam içadas
só no fim

náufragas as palavras
só fariam par
com as pedras
e algas no fundo
do mar

ali sim,
o mais belo silêncio
e o vazio igual a espera
desse momento
nós.

sábado, 17 de setembro de 2011

dogmas




















o fantasma que mais amo
não arrasta correntes
sobre meus telhados
não caminha sobre cinzas
ou berra em maldições


me faz sorrir e chorar
faz brilhar essas cicatrizes
e pergunta: por quem morreu?
por quem foi sua luta?
pra que se arrepender?


ele vive a fugir do sol
vai embora quando amanhece
não mente, nem engana
sangra por fantasias
e sonha que sabe do amor.



(fotografia de meu amigo Otaviano Neves)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ruído

























é vermelho o prurido desfalecido
que insiste em minha porta

sim, escarlate como o enfarte
de outubro do ano passado

e as artérias azuis repletas de rancor
carregam o rubro assim como as veias

sim, encarnado como sangue
carmim é a cretina palavra

sim, o despeito tem cor
e insiste nesse leito

o choro desemboca no travesseiro
e tem sufocada a vontade de som

desespero e silêncio
são meu nome e sobrenome.

domingo, 4 de setembro de 2011

poderia mentir



















dizer que estarei aqui
esperando por você
que aceito sua inconstância
e que distâncias não apartam-nos
dia após dia

poderia compactuar com sua posição
dizendo que sou forte e resisto
confirmar minha capacidade de superar
de recuperar nas adversidades
noite após noite

nesses tempos aprendi
a chorar com desespero
a não me disfarçar mais em embustes
e mesmo no desvario ser real
eu após eu

saiba, meu amor, que só
o sol é assim resiliente
nasce além de sua vontade
e vem absoluto e insistente
imune a suas verdades

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

silencio o ontem

























o corpo pede exílio
e a garganta horizontal
já não quer arranhar
e nem se converter


quem sabe assim os garrotes
corrompam o torque cervical
de maneira eficiente
e o silêncio flutue
paralisante e tétrico


um certo cansaço toma conta
de meus atos asfixiados
talvez eu me esconda nas falhas
que cometi no passado


ou me guarde eterna
em mim mesma
de modo gradual e doloroso
para silenciar o ontem aqui


quem sabe...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

vem pelas minhas botas



























estou tão perdida
ao despertar
caminha pelo veto
me cansei de esperas
e do morno grito
quando algo se desfaz

as flechas inimigas
só fazem derrubar
o que não tenho
e acreditam me atingir
se a faca das nuvens não afeta
possuídos impunes
quem sou eu para me rebelar?

vem pelo vivenciar cúmulos
pelo praguejar de deuses
não encontro textura dos beijos
nas desistências colecionadas
entre as meias finas furadas
e sem aspas o desespero inexiste

vê que estou aqui a salvo
mesmo que as harpas
toquem sinais de morte
isso é placebo para o veneno
rendez-vous para desavisados
festa aberta para doidivanas

é tanto e pouco na tortura
que no encolher do verso
a nervura reclama aflita
amai o tóxico como a ti
mesmo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

pernoitou-me tua fala

























além de mil sóis isolados
meados por madrugadas febris
raiou-me teu querer
por míseros segundos sei que nos amamos

feito presente de segunda-feira
feito véspera de feriado
em desespero e culpa
vidrados na falsa compreensão

e enquanto houve amor
tencionamos e queimamos
e no encolher do músculo
a ausência de ebulição

além das noites insones e ilusórias
que hoje jazem frias
implodiu-nos a realidade
seguimos sós

pernoitou-me tua fala

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

nada mais

























sempre vivi infernos
mas minha dor só sangra em mim
e nada é eterno que não o desterro
nem mesmo o fim

e para contrariar digo que nem é tão raro
se agarrar a pesadelos isso sim é ato falho
querer a dor alheia e se perder no desespero

perdi a conta do número de vezes
que me vi só e não morri
que me vi perdida no caminho certo
que dei a mão ao inimigo

mas cada um sabe de si
da fuga imediata para sua dor
de seus deslizes e seus despistes
e dos limites de seu rancor

e enquanto queima a chama
fui eu que disse
só eu quem disse
me chama

e ainda sussurra que me precisa
que vamos além e que me preserva
mas antes de sair quase avisa
que o sofrer é a minha reserva

poderia contradizer e afirmar que é só um desvario
não me sacia nenhum paraíso se não está comigo
já busquei tantos atalhos, estradas fáceis e fatais
hoje só desejo o silêncio, o sossego e nada mais
e mesmo se houvesse a resposta
eu me calo pois

sempre tive infernos
e essa dor só sangra em mim
e nada é interno que não inferno
que não a dor, que não o fim

terça-feira, 23 de agosto de 2011

álbum de fotografias
























quanta sorte sonhar quando se é verde
não gosto de falar de minha infância
não há atos nobres nessa época
o que tenho certeza é que queria
crescer logo e me livrar da caolhice
do manco de pés tortos
da aparência desengonçada
e da opressão dos adultos

mal sabia eu que a miopia aumentaria
que os pés continuariam tortos
que a aparência piora com a idade

mal sabia que a opressão maior
é a da realidade e não dos velhos
mal sabia que ser cuidada e oprimida
é mais acolhedor que ser ignorada
ou ser preterida

não me recordo de tempos para sonhar
havia um medo velado em meus olhos miúdos
e um silêncio imposto
naquela casa sempre cheia de visitas importantes
era proibido correr
dizer palavrões ou se manifestar

ali criança não tinha vez
pular o muro e viver uma alegria clandestina
rendeu-me ora a cinta ora a palmatória
quem dera ter tido a glória
de saborear da liberdade

luxo seria ser uma criança
numa casa de velhos burgueses
não me recordo de um momento
de êxtase livre de culpa
ou de uma satisfação
não fadada à mentira

sou fruto do que fui
no fundo ainda sou
aquela criança.