Pesquisar este blog

segunda-feira, 28 de março de 2011

flor irreversível























o que me tomba são esses olhos
essa passagem turva
que a miopia
teima em ofuscar

nem chegue muito perto, moço
que cá em minha matuteza
só sei do seco e da aspereza
da lamúria de fundo de poço


quem dera assim
cansada da labuta
esperasse livre, que não a luta
e nem causasse tanto desgosto


sou eu mesma,
essa flor irreversível
esse ser indivisível que teima
em preservar-se ileso

quem dera fosse solta de nós
e desprendida de egoísmos
seria calmo meu lirismo
e essa gota de devoção

pare estrangeiro
não te dei o direito
de invadir meu peito
e devassar minha canção

mas que venha sóbrio
de dom e de coração
e que nesse verso
pratique a imensidão.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

























há de ti um canto morno
fala embargada
de quem não se ouviu

é nítido chamado

que no amargor
do ser e do verbo
o palato doce teima
em ser céu.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

ilusões de ótica




























as taças da bebida verde
dizem que é fogo
os basculantes avessos
falam em vômitos
os homens juram que é sexo
e as moças sonham que é amor

digo que é fumaça

a bebedeira engana
a náusea repele
a jura mente
os sonhos pervertem
a fumaça disfarça

e na bruma
entre espelhos embaçados
seres descolorados procriam
sorrisos desbotados
dispostos em janelas cinzas
voltadas para mundos de chaminés.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Wassily

imprimo-te abstrato
fascínio
decoro-te de pé
e salteado

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

minto


























aprendi com boa gente
com um certo Pessoa
dando Bandeira
escorrendo Buarque
na boca de Quintana
ou seria Quintela?

divaguei em Mários braços
Peitos e beiços de Pagu
prosas de Passos
perdi-me concreta Haroldo de Campos
talvez Arnaldo Antunes

deitei-me com dos Anjos
acordei com Baudelaire
e ao me ver viúva de Matos
deleitei-me com Melamed!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

mestiça

por vezes me vejo
ínterim e nua
sob olhos
de Gauguin

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Fotocópia








tatuados
na língua
esporos teus

transcritos
em falo
de outrem

domingo, 17 de outubro de 2010

Griet

faltou-me o brinco
de pérola
trago o mesmo medo
sufocado nos olhos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

sutura




















vendo o rasgo
que a realidade abriu
costurou saias
cada vez mais compridas

mas a chaga faminta
corrompia os limites
comia-lhe cada vez mais
o verbo e a carne

amputou-te um membro
e manca de uma perna
seguiu negando
assumir-se em muleta

e a ferida aberta
rompia as suturas
tomou-te as sobras
revelando-se o avesso.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

lobotomia
















optou pela convergência
total do nervo ótico
uma vez pinçada
a visão devotar-se-ia
à iniqüidade crua
do que antes
só um borrão

mas o cérebro
reprimiu-se frágil
na opção da miopia
sucumbiu diante
de tudo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010



















ceguei-me do olho esquerdo
de tão desgastada
não quis ver as chagas
que eu mesma abri

antes de ferir-me
mais algumas vezes
calei a aflição
na tentativa da conversão

desferi golpes certeiros
contra carnes moles
e pensamentos impuros
até não conseguir respirar

só aprendi viver assim
consumindo-me em perdas
queda a queda, gota a gota
clamando pelo novo

mãos estrangeiras
buscaram a re-vida
em vão
morri duas vezes.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

expurgo





















admiro o homem
sei dos suspiros
soam melhor
que gemidos gozosos

a sensação de alívio
do encontro
da falta

suspiros são gozos
baixinhos
como quem chora
de feliz

para quase sofrer