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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

subsolo
















cada segundo descansa sob
as horas cativas e inertes
fazem-me fórceps e vértice
na intenção de ser

ah, belo desmundo de não-ser
é tão leve e oportuno
quase um endeusamento
do inexistir

sangria doce e mal cheirosa
que vinga a culpa na carne
desonra a palavra e não cala
apenas exala o cheiro do sonho
de não ser

atrevi-me a entrar em teu mundo
que declinou-se no meu
verde e vertido no soco seco
da vasta invenção de ser

sobre o medo de chorar


























odeiam que misture primeira
e terceira pessoas
mas é vício, isso é sexo, baby

porque chorar gotas de tinta
e sentir a garganta fechar
ao cheirar flores mortas?

já não há concretismo aqui
e onde habitava uma atéia
há hoje uma etérea
não sabe deixar ninguém esperar?

espero, desfacelo-me,
sufoco
e ainda guardo
lágrimas de Pollock.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

















a chama da aparição
ainda queimava
e a pele rubra
lambia-me

ventre e existência
em farrapos

a fumaça atravessava-me
feito besta-fera
galopava em olhos
vidrados que refletiam
a carga do fenecer e vagar

na leveza da dor flutuava
pálpebra, olho e caos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

pedra prazer






















Pedras

ato III – pedra prazer

mergulhou lasciva
em seu querer mais obscuro
o paradoxo de olhos fechados
vagou por mãos impunes
e armas eróticas

silenciosa mordia-se
na ânsia por dor
entregava-se a todos
com alma e peitos gastos

no seio esquerdo
alimentava o amante
e no direito um infante

com a ilusão certa
luzes do fundo do poço
olhos rasos e insatisfeitos
mais que masturbação
dos outros
menos que expiação de si

embutida de noites insones
ainda desejava
aquele que a desonrou
e coexistia com seu caçador
em seus orgasmos mais violentos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

















garrafas de bebida barata
continuam a nos afogar
a nos encantar como mitos
que sonham e chamam
para o fundo quase ludibriando

mitos se desfazem após a maresia
e a cirrose corrosiva ataca
olhos e pulmões a ponto
de cegar e sufocar
enquanto mais um dia amanhece

nessa hora as ondas trazem
o que o sábio mar já não quer
garrafas e corpos vazios
já sem esperanças vãs
idos sonhos de mudança


(imagem de minha autoria)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

goteira






















escorreguei gotejando feito
chuva nas pedras do incompreendido
vãos entremeios do ignorar

há cura para o cansaço
é o sussurro seu no meu ouvido
é a mentira que me conta

já não corro da chuva, da nuvem cinza
nem da esperança que me cega
ainda tenho olhos esbugalhados

eles passam entre seus dedos
como as contas do rosário
de minha avó em devoção

lembro-me ainda do choro
de meu reflexo no seu olho
conjugações não me emocionam

só as gotas
distante me faz ler poesias
e tento reescrevê-las num ato falho
as lágrimas amargas falham em face vazia

jamais tentei o distanciamento
e até orei meu abismo aos bárbaros
que caçoaram de mim

e se consegue ver-me em seus olhos
fure-os na ira da gota
não estou pronta para nós.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
















sob os horizontes
tombam olhos famintos
vontades permissivas
exércitos sem causa

calam-se sob o tempo
essas lutas vãs
ecos de derrotas
mortos e famintos

e todo o resto se amontoa
quando os amanheceres
se tornam garrafas vazias
de bebida barata.

(imagem de minha autoria)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

















no último sonho
conto que não há mais nada
a heroína é o cansaço
que arregaço em minhas veias
fundidas ao pó da carne

dilacerada e entregue aos mortos
vou seguindo teus rumos
agregando-me devoto
aos pesadelos que desconheces

na pupila dilatada o universo
que engana
na finitude humana salva-nos
a ignorante batalha vã
e a vitória do desconhecido.

(imagem de minha autoria)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

sobre a embriaguez...




























o tédio do doce em close
olhos vazios
voltados para o nada
ostracista

não fosse o visgo
das horas que se arrastam
talvez vencer-se-ia
por distração

maldito vício
que impulsiona as vontades
não fossem as faltas
qual o sabor da embriaguez?

(imagem de minha autoria)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


























no quinto sonho
as janelas estavam fechadas
e o chá era servido frio
não gelado
calados e sem juras
não se olhavam
o sentido era verde
como o sachê
dentro de suas xícaras

(imagem de minha autoria)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



Uma vida cinza
Escrita com mãos pálidas
Com unhas carmim
Os olhos apáticos
Poemas traumáticos,
Linfáticos,
Catatônicos...
A miopia desconhece
A vastidão inóspita
De uma vida entre o negro
E o nada.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

uma ópera introspectiva

















se ao menos me lembrasse
de quem sou por trás
da maquiagem branca e carmim

se soubesse dos cantos
desafinados
de minhas vontades

o ator em minha ópera
esquecida
falida

ensaio um sorriso falso
uma reverência
mas caio, ao curvar-me

uma comédia trágica
represento e vivo
nalgum teatro vazio

sem esperar aplausos
ou reconhecimento
antes das cortinas baixarem.