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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ciclo dos Símios




quase Hemingway

isso foi só no começo, enquanto escrevia os oito capítulos iniciais. eram sensações ruins, não sabia bem se era ficção ou romance. alucinada, vomitava um monte de palavrões. dizia: "Carlos, continue batendo!". e ele respondia: "comprei botas novas!". depois de boas surras eu fumava um pouco, esmurrava a porta do mobilhado e caía no sono. aquelas coisas continuavam brotando da minha boca, a violência  era atraente para nossos corações atormentados. ele era parecido com Hemingway, quem sabe um pouco melhor. abri a gaveta do meio e puxei o porrete, guardado embaixo das calcinhas e bati nele com toda força, “enfia no rabo, com querosene e coloque fogo, honey!”


expiação

amarrou pernas e braços, reforçando a condição eterna de subjugada. a boca deixou solta, pois já não importava mais o que ela dissesse, eram só palavras de um serzinho magoado e isso o divertia. reclusa não chorou em nenhum momento ou implorou pela liberdade, não daria a ele essa satisfação. vieram os outros e por falta jogaram pedras, é fácil ser pedra.

a ilha

havia uma certa zona de conforto enquanto se esqueciam da friagem que trazia o corpo. naquela noite, depois de tudo que passaram, ambos sucumbiram ao silêncio e se tornaram ilhas de um mesmo arquipélago. a letargia era um sentimento novo e hora ou outra aprenderiam lidar com ele.

febre

a exatidão das coisas tirava-lhe o sono, e mesmo sem que percebesse estava presa num labirinto lógico, que negava, para no fim cair nas mesmas saídas óbvias de sempre. reverenciava os Best Sellers, os romances baratos em grandes volumes, vendidos em bancas de revistas, mas não conseguia aquilo que julgava maior e digno, escrever algo para ser lido com facilidade. queria o fervor das putas, ser vendida em todas as esquinas e em qualquer canto que a desejassem, mas era covarde demais para isso, então escrevia.


porta-retrato

sim, aquela era a melhor lembrança que trazia dele, um sorriso exposto sobre a estante empoeirada da sala. era um troféu do fracasso de sua mãe de mantê-la protegida de seus amantes, depois que o pai foi embora. nada flutuava quando os três dividiram por meses aquele maldito quarto e sala. o sorriso era denso, quase sem falhas, não fosse aquela pequena ruga dissimulada que erguia-se no canto esquerdo da boca. tentou fugir, mas ele descobriu o novo endereço e não deveria ter voltado a importuná-la. foi aquele rosto que a esfaqueara, aquele mesmo corpo que ela fez questão de alvejar por duas vezes, sem nenhuma piedade.


digressões

era mais que trabalho, a máquina de escrever, o barulho, o ritmo frenético das teclas, o cigarro aceso entre os dedos ocupados iam se tornando prisões para os dois. entre letras e paródias trágicas ela construía seus personagens, sua vida e se sabotava nas entrelinhas. ele era um xucro, mas conseguia rastreá-la nas pequenas atitudes. ambos eram arrogantes obstinados, atentos e criavam distâncias que brotavam entre rotinas solenes.

asas

por um momento olhou em volta, esquecendo-se do passado e nem confabulando um possível futuro. vislumbrou a luz que invadia a fresta entre as cortinas cansadas. as partículas de poeira pairavam sem culpa e caiam sobre o rosto de Carlos. ela sorria pela simplicidade da cena, ele jurava que o olhar dela era por amor, eu sei que é só a fumaça de cigarro, sol e poeira.

simetria

todos eles se comportam assim em algum momento, fogem dos sentimentos, como Hemingway fugiu. de certo modo preferiu enfrentar a guerra. encarar outros homens armados parecia mais justo e menos complicado que olhar nos olhos de uma mulher. aquela retina tinha o mesmo peso de mil trincheiras. quantos já foram colocados contar a parede e fuzilados sumariamente por olhos mais gentis que os dela.


móbile

os olhos brilhavam, ele bailava num ritmo próprio quase alucinado revirava-se. ou seria apenas o vento, um frescor sob sua armação? erguia o queixo para o alto como se orasse, mas só conseguia aquela expressão quando me ouvia gemer depois de ser currada, a minha dor soava redenção. no nono capítulo, ela revelava toda honra e toda glória ao deus príapo. Carlos esquecia-se de suas dores e tornara-se Dom Quixote queimara todos os moinhos de vento, galopava e gozava sobre sua Dulcineia.


cochilo

agora ele dormia o sono dos justos e ela o observava com a atenção redobrada. bem que poderia escrever sobre ele, como duvidava de sua retidão e como ele duvidava de sua sanidade. poderia contar da suavidade que sustentava naquele corpo magro e infame, o quão obscenas eram as palavras que ele proferia ao pé de seu ouvido. não era um homem excepcional e nem se considerava como tal, não era sofisticado e estava bem adaptado ao meio que vivia. mas se fosse definir seus predicados deveria esconder os escritos dele. Carlos não era uma pessoa fácil e não aceitaria o estereótipo de qualquer personagem.


mar

os olhos permaneciam inertes, pousados na imagem dele enquanto dormia, mas despertou ao perceber que era observado. repousou a mão direita sobre seu rosto, enquanto as lágrimas dela pingavam sobre ele. as mulheres são sentimentais e preferia se calar quando não entendia suas reações. ela não percebia que externava apenas uma ilusão. ambos sabiam que cultivavam um determinado prazer , o de se machucar mutuamente de propósito. aquela satisfação indescritível que sentiam ao desferir golpes certeiros um conta o outro era o que os conservava juntos.

post-it

a insônia fazia ver coisas que nem sempre estavam ali, só agora percebera que as anotações estavam úmidas e que havia mofo na parede. escrevera a noite inteira ouvindo os choramingos de Carlos no meio de seus sonhos, ou pesadelos, não sabia ao certo. as chuvas estavam marcadas na pintura velha daquele apartamento suburbano. as unhas dele estavam roxas e as dela roídas, quase que em carne viva.

a mancha

meu sangue ainda estava no lençol, não sentia mais dores, mas os hematomas permaneceriam ali por mais dois ou três dias, antes de sumirem completamente. a alma não cicatriza como a carne, não mesmo. passava das duas da madrugada, os olhos procuravam uma figura horrenda e só encontravam Carlos e a máquina de escrever silenciosa. talvez aquela fosse a verdadeira visão do inferno.

caos

todo fardo é pesado demais e era o preço para vê-la sorrir. o dia passou lento e Carlos estava exausto. por horas seguidas carregou sacas de milho para o depósito. não suprimiu sonhos, talvez tenha sucumbido a eles. nesses dias de realidade gritante e absurda expunha-se ao risco. imperava o desejo do doentio sentia-se sem ar e com saudade de sua hipocondria.

escafandro

nesses dias que o silêncio toma a máquina de escrever e contamina a alma, todo resto se cala. estava preenchida de azul, com os pés enterrados na areia turva e cheia de sedimentos. o mundo exterior é um umbigo fino repleto de ar e tudo se move de maneira lenta. Carlos chegou bêbado em casa, sem nenhum dinheiro e parecia ter levado mais uma surra, essa bem pior que as outras. e ela não sentia pena, nem raiva, não parecia pertencer aquele quadro.


livros

não recebi nada nos dois últimos meses, por não entregar duzentas páginas como o combinado, estava atrasada. no décimo capítulo, não dariam o emprego a Carlos com a cara estourada, ela trabalhava muito, ganhava pouco e estavam na lona. beberam a garrafa de vodca em grandes goles. ela vomitou a manhã toda, quando melhorou escolheu seus melhores títulos e vendeu para um sebo. garantiu jantar e bebida naquela noite.


a fome

a geladeira estava vazia mais uma vez, logo desligariam sua luz e já pensava nos banhos frios que teria que tomar. o estômago reclamava e o consolo era que nos dias bons compara muitos maços de cigarro. fechava os olhos, a exaustão tomava conta da cena, hoje Carlos não voltaria para casa. desistira centenas de vezes daquele capítulo,  reescrevia, relia, rasgava papéis e por mais que tentasse não alcançava o sentido que lhe impunha a realidade. não conseguia se desfazer dele, por isso não desistiria.

redoma de vidro

colecionava souvenires das mais belas cidades do mundo, admirava mais os globos cheios de água e brilho ou pequenos flocos de isopor que imitavam neve. estavam dispostos nas prateleiras mais altas para que não fossem tocados por estranhos. não que quisesse conhecer lugares diferentes ou ter sensações novas, mas apenas o deleite de estar presa dentro de uma esfera segura. no décimo segundo capítulo, os baobás não tomariam seu planeta, tão pequeno quanto o do príncipe. datilografou insana as cinco páginas e com os olhos cheios de água sufocou, aquela tarefa vencia suas forças. a casa já não era um ambiente controlado, ele não era a rosa, nem o único do universo, mas a constatação de que precisava dele era assustadora.


amor

serviu-me a flor como prato principal. ensinou-me arrancar pétala por pétala até chegar ao coração. esse sim, era iguaria fina desconhecida ao meu paladar que aprendi a degustar e salgar por suas mãos teatrais. no décimo terceiro capítulo, ela descobriu que a alcachofra não é flor e sim inflorescência, como o abacaxi. juntou os papéis de seu último pretenso livro e os jogou pela janela, rindo! um copo com uísque, não em grande dose mas o suficiente para fazê-la dormir.


dados

lançaram-se extremos sobre o veludo azul, fácil demais para ser real. “seis, dois”, gritava o crupiê. suspiro do que não veio. no décimo quarto capítulo, perceberam que os dados são viciados derrota. um era seis e o outro nunca caía com um, ambos infiéis provocadores. se juntos somassem sete ou onze não estariam entregues aos jogos de sedução nem ao dilema da perda.

cortinas

pensava que ser livre era bom, se perder nas escadas rolantes, estacionamentos rotativos e vagões do metrô. se entregar a estranhos era divertido e perigoso. espiava por trás das portas e não se assustava com mais nada. no décimo quinto capítulo as igrejas estavam lotadas e ela já não queria perdão, enrolaram o corpo nas cortinas e os dois desceram com ele pela saída de emergência.


a cruz

a ignorância imperava ali. comprara um martelo e se encheu de alegria. nunca fora tomado por um sentimento tão crucificante e redentor. hoje todas aquelas redomas de vidro seriam quebradas. no décimo sexto capítulo, os olhos de Carlos estavam vazios e só pensava no dolo de quebrar a resistência dela.


preâmbulo

o cansaço dominava o cenário, cochilou com o cigarro entre os dedos. o vazamento da pia dava o compasso da cena. a boca aberta, podia ouvir seu coração e a quietude sob a coberta alaranjada. a sensação de sossego beirava a fúria, jamais confessaria o que fez. talvez a beleza das coisas resida nesses momentos suspensos. o tudo habita onde aparentemente nada acontece.



circo

se dissesse que não gostava do espetáculo ririam de mim. tenho antipatia por palhaços, pois se parecem comigo. minha desgraça é pano de fundo para a alegria alheia. a platéia esperava ansiosa pelo globo da morte, o barulho ensurdecedor para quem não quer ouvir mais nada. no décimo oitavo capítulo as labaredas giravam na mão daquele homem, segurava as adagas como se não cortassem. o público vibrava e a roda girava num ritmo frenético. ela era o alvo do atirador de facas.



winchester

Carlos teve mais sorte, tinha amor por ele e sei que seu desvio era por conta da personalidade opressiva de sua mãe. entrou pela saída de incêndio, todo molhado, numa noite chuvosa e foi ficando. já no décimo nono capítulo ela dizia: “o último cara que me bateu acabou dentro do rio, matei com dois tiros depois de ter batido nele, empalado seu lindo rabinho com o cano de winchester. quis mesmo esfaqueá-lo no coração, mas não gosto de mortes sangrentas e nem tenho um canivete. era uma bicha enrustida, chegou confessando paixão por mim, mas não conseguia ter ereções e me espancou por conta disso. não perdoo esse tipo de comportamento imbecil, não perdoo!”.



o boi

a quase guerra duma camisa no varal com o vento. uma cerca de arame farpado protege o quintal. o mito passeia pelo paladar, é carne! nada bucólico, cru, não causa náuseas e mata a fome. no vigésimo capítulo, sob a sombra da pedra preta, Guernica pasta. é bovina a carne que dobra no prato e meu olho desprende mil farpas na direção daquela camisa suada, entreaberta sobre o peito dele. consumo a erva da beira da estrada, a mesma que alimentou o boi. Carlos dorme, alheio à refeição e ao mito.


olho mágico

se olharam fixamente sem dizer uma só palavra. uniram-se para ver em alto relevo, o sangue na jaqueta de couro era só pretexto, o que queriam mesmo eram sensações em três dimensões. enquanto um sufocava, o outro respirava com dificuldade e o terceiro nem isso. mal se davam conta que precisariam se livrar do corpo, beberam até perder os sentidos e dormiram com o morto naquela noite.


pretextos

estavam cúmplices desde o princípio, sem ausências. mesmo em pequenos gestos conseguiam se entender. um era o limbo, não podia se perdoar pelo frequente equívoco de fazer promessas que não cumpriria. o outro era o oposto, não se prendia a nada. nesse capítulo descobririam que ambos são mendigos, andarilhos errantes. perderam o rumo, se contentavam com migalhas. não há um ser que se possa chamar de “casa”.


luzes
não havia confronto ali, só um misto de desesperança e culpa. sem querer ficar ou fugir fingia dormir por não querer falar nada. a rua esteve escura por muito tempo, mas haviam tomado providência e as luzes naquela noite foram acesas. cada um de um lado da cama, quase uma avenida entre eles e um silêncio aterrador. ele conseguia ver as pessoas passando. pareciam formigas em suas filas coordenadas. por mais que pensasse em uma saída digna, Carlos sabia que estavam condenados a um fim trágico.



a bailarina

lembrava de meu pai naqueles dias de chuva, foi num dia como aquele que foi e não voltou. ele nunca esteve muito tempo dentro de casa e recordava-me dele apenas pelos presentes que trazia e pelo cheiro de bebida e cigarro que exalava. trouxe-me uma vez uma caixinha de música, dessas que vem com uma bailarina. talvez por isso bebia e fumava tanto, para ter de volta o cheiro de infância. no vigésimo quarto capítulo, Carlos a tirava pra dançar e ela sentia-se como a bailarina da caixinha, rodando, bêbada, sobre um mar de espelhos.



calundu

a mãe falava com os mortos e cedia seu corpo a eles. Carlos lembrou de que quando criança ouvia conversas no escuro, sussurros por trás das portas e nunca soube dizer se era a religião ou o estilo de vida dela. ao amanhecer o banhava com unguentos e canções de maldição, um culto secreto de glória ou de lamentação, como saber? recordava que fora tomado por tios e por desconhecidos e não se lembra se vivos ou não. o certo é que era violentado por herança materna. no vigésimo quinto capítulo, ele escondia o rosto para chorar e sufocava os soluços no travesseiro. a fita da máquina de escrever estava gasta, mas mesmo assim queria continuar escrevendo, ela não era sensível e nem tinha tato para assuntos tão pessoais.



o disco dos símios

o vinil está sujo, a agulha vai e volta no mesmo ponto, mas ninguém desliga a vitrola. uma varejeira sobrevoa as sobras do nosso jantar, talvez o último. uma mosca consegue nos desprender da uniformidade da cena. é verde e voa rápido demais. não temos mais o que falar, só ficou a indiferença e o desprezo. Carlos num único e certeiro golpe a derruba e tudo volta ao normal. no vigésimo sexto capítulo, o relógio parou  e está estático como o retrato dos três macacos. o cego insiste em ouvir, o surdo insiste em falar e o mudo cansou-se de tudo.


tramontina

trago marcas de faca no peito, no ombro esquerdo e nas pernas. foi a falta de amor de meu pai por minha mãe que causara tais cicatrizes. herdei dele o abandono precoce e dela os amantes. e é aí que a minha história se parece com a de Carlos, a diferença é que não acredito em espíritos. no vigésimo sétimo capítulo, eles arrastavam um corpo para o rio, quase não havia sangue, não fosse o orifício no peito do primeiro tiro, o único que sangrava. os amores rasgam feito as facas de cozinha, pouco afiadas para não cortar os dedos, mas pontiagudas e no tamanho ideal para furar fundo.


peixe morto

já te pedi algumas vezes para que não me olhasse assim, esse seu jeito quase me dói, sabe bem de meus defeitos, não ouso enganar ninguém. hoje posso ficar mais um pouco só pra te agradar, vir deitar mais cedo, encher seus ouvidos de sonhos e seu corpo de amor. no vigésimo oitavo capítulo, deixou o sol dormir um pouco mais e sustentou os medos dele entre seus seios, sem promessas posteriores. era mais fácil amar de verdade no passado que no presente. lá no passado, como lembrança trancafiada em algum canto escuro, o amor é garantido por ser pretérito. ontem deparou-se com vários olhos como os dele boiando na lagoa Rodrigo de Freitas.

baixio das bestas

datilografou três possíveis desfechos para a cena,  no vigésimo nono capítulo, o personagem permanecia caído no chão. a malhação do bode expiatório cabia bem à ocasião, as pessoas se acalmam ao extravasarem suas insatisfações, mas por hora não descartaria os pregos e nem a arma de fogo. ela indagava-se diante da humanidade que crucifica seu salvador é melhor dar a outra face, abotoar nele o paletó de Judas ou deixar que ele resolva o problema sozinho?

liberdade

inspirei como se fosse só pulmões e expirei como se botasse até a alma para fora. a consciência berrava ao mesmo que me entregava em gozo silencioso. Carlos colocou o cano da winchester na boca e sentiu o gosto do chumbo. em algum momento ela o comparara a Hemingway, então se sentiu em cuba, quase revolucionário, num desespero que beirava crença. ao menos agora a consciência também se calaria.


dedo médio

seus dedos eram curtos, mas a cabeça podia voar. não entendia as filosofias, nem as palavras difíceis que ela datilografava o dia todo para colocar comida na mesa. não entendia o motivo das pessoas perderem tanto tempo lendo um livro sem nenhuma figura. a janela era mais interessante, os transeuntes eram diferentes e tão iguais que por vezes pareciam o mesmo passando repetidamente no mesmo lugar. o cano da winchester era longo demais e ainda assim seus braços compensariam a insuficiência dos dedos, ele já havia se decidido.

miolos

gastei alguns neurônios para entender Schopenhauer no seu aspecto existencial, mas ao concordar com ele em vários pontos abdiquei da esperança. apetecia-me o sabor das vísceras de animais, o fígado era o mais apreciado. no trigésimo segundo capítulo, encontra Carlos sentado no chão com os olhos fechados, cabeça pendida sobre o peito, mais uma vez o comparou com Hemingway, mas ele era melhor, conseguiu tocá-la como poucos. mas o cheiro de seus miolos não sai das narinas, não sai.


retroescavadeira

não há discernimento em autobiografias, era melhor falando dos outros. propaganda enganosa é o falar de si, pura e simples propaganda enganosa, pensava. Carlos morto explica-se melhor que ela. olhava para ele como quem observa um detento, sabia que não gostava de ternos, dizia que sempre o apertam em algum lugar, mesmo os feitos sob medida. desconhecia o terno e quando eclodia em sua alma perturbada, internava-se. sabia mais dele do que de si.



buraco negro

datilografei mais de cem páginas perseguindo um personagem que tentei manter à distância. tarde demais, já era um objeto em órbita de colisão sem escape, atraída de volta à região de onde fora gerada. poderia me perder no céu de sua boca, feito o sentido das palavras voltadas à verborragia incrédula de quem não crê em semiótica. no trigésimo quarto descobre que nem as estrelas vivem para sempre e que perdera por completo o controle da situação, encontrava-se em colapso caindo sobre si mesma.

metafísica

sua voz grave insistia em chamá-la, enquanto sentia seu membro rijo entre os dedos, desejava que eles passeassem debaixo do vestido, afastaria a renda delicada da calcinha para sentir o quanto ela estava molhada, apenas vislumbrar a cena o conduziria ao gozo.
Carlos não estava ali e ainda habitava seus poros, lembranças e entranhas. os pensamentos dela eram iguais aos dele, então abriu as pernas e com dois dedos penetrou-se com força, várias e continuadas vezes. a lembrança dele chamando pelo seu nome não seria o bastante, não hoje.

símios

enfim conseguiu chegar ao fim, eram os últimos capítulos. há quem não tenha noção desses ciclos que permeiam a existência. um assassino deveria saber que matar uma pessoa é difícil, imensamente difícil, até porque o golpe proferido é o mesmo e de igual proporção ao que lhe atinge, fere e castra, no mesmo momento que mata. e essa dor vai e volta, no mesmo lugar, como vinil sujo. ela podia dizer que se defendeu, que fora vítima dele incontáveis vezes, mas ser vítima é melhor que ser igual ao agressor, ou não? já não sabia dizer se era culpa ou redenção. a lembrança do morto era a coisa mais nítida que tinha em si. mas depois que uma pessoa morre em seu coração, não tem mais volta, não tem. 


infâmia

a lembrança do corpo afundando no rio ia e vinha, como o próprio movimento do defunto. era branco, jovem demais e passou dos limites, antes que o matassem. ela quase ria, era mesmo uma vingança crua. o olhar de Carlos era único, não era remorso, não era rancor, de certa forma ele submergira com o morto. parecia guardar o universo na retina funda e negra, feito a água naquela noite de lua minguante.


ampulheta

via as vidraças sujas, mas não queria limpá-las. não era preguiça, tinha mais a pensar, tantas páginas para escrever, tanto o que expressar. as teclas sonoras entoavam uma canção antiga, enquanto a luz tentava passar pelo vidro. voltar o tempo é impossível, mas é o que mais desejamos. não seria mais coerente tentar pensar e aproveitar melhor o presente, para que no futuro essa sensação de querer voltar o tempo não seja tão latente? 


aprendiz

fosse um misto de insegurança e certeza, nem isso. aquilo era torpor cego, loucura. personagem comandava certeiro e brotava em cada linha mal feita, em cada palavrão dito enquanto ele dormia. determinada a fechar aquele ciclo digitava calada e faminta pelo verbo. no trigésimo nono capítulo, não era Carlos que pulava a janela e sim a realidade nua, violenta e sem alegorias, aprendia com ela.

plenitude

antes de cicatrizarem as feridas criavam cascas, havia um prazer mórbido em cutucá-las até sangrarem. suas mãos suavam enquanto pensava noutro capítulo. e como se esperasse o penetrar sagaz de mais uma daquelas vontades compulsivas de escrever qualquer asneira, respirava fundo. a estação mudava e o cheiro da tempestade entrava pela mesma janela  que ele entrou.

3 comentários:

Antonio Junior disse...

Que texto extasiante! Gostei muito. Parabéns!

.Leonardo B. disse...

[reclama-se a ausência... exige-se a presença]

o fulgor das palavras faz falta no circo do mundo... as suas estão a demorar na chamada!

Um imenso e transtlântico abraço
(ah, atlântico... esse ribeiro para quem estreita laços!)

Leonardo B.
Bizarril

romerioromulo disse...

larissa:
te encontrei no cronópios e vim
conhecer.
romério